Sexta, 30 de Julho de 2010

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Da literatura: impressões de um leitor em busca de leitores

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"A literatura, à medida que preenche a nossa incessante busca por fantasia e desejo, serve-nos como poderoso instrumento por meio do qual somos compelidos a nos vermos representados naquilo que lemos.

É difícil sempre começar um texto, principalmente quando ele deve servir de abertura para outros que lhe virão em seguida. Por isso, para início de uma conversa que, espero, será bastante longa e que renderá não só este mas outros textos, gostaria de tecer dois dedinhos de prosa sobre algo de que trataremos, com muita frequência, ao longo desta coluna: literatura.

Antes de qualquer coisa, quero esclarecer que não estou preocupado com uma definição sobre o que vem a ser literatura. Não desejo, pois, enfrentar uma querela que já tem uma longa história e não vai findar tão cedo. Mudam-se os tempos, variam-se as formas de conceber a literatura e o literário que seguem indiferentes a toda e qualquer tentativa de uma rígida e álgida definição.

Quero, entretanto, apresentar alguns aspectos ou mesmo impressões que servirão de norte para os textos que estarão presentes nesta coluna e que, quando não eminentemente literários, se voltarão para a literatura como uma forma de arte específica que, desde os tempos mais remotos, tem procurado representar o humano e fazer-nos sentirmos representados. Parto, portanto, de uma escolha bastante explícita dentre as várias que me eram possíveis e que diz muito da maneira como me relaciono com os textos literários e com alguns outros textos que procuram pensar o literário.

Em um texto intitulado de O direito à literatura, Antonio Candido, grande crítico brasileiro, concebe a literatura de forma ampla como a capacidade de fabulação, isto é, de entrar no universo da ficção e da poesia. Como tal capacidade é inerente ao ser humano, não há povo ou homem que possa viver sem ela. Consequentemente, a literatura, concedida dessa forma, é vista como algo que vem preencher a nossa capacidade de desejo e de fantasia e, lembrando-nos do velho, mas sempre atual, Aristóteles, desperta em nós piedade e temor, daí por que não só romances, poemas, contos, crônicas, mas também todas as formas que englobamos com o epíteto de folclore, tais como as parlendas, as cirandas, os folhetos de cordel, são vistos como formas exemplares de literatura. Umas mais valorizadas; outras menos. Isso, todavia, é tópico para outra(s) conversa(s).

Tendo sido criada pela humanidade não para fins práticos, mas, muitas vezes, para puro deleite, elevação espiritual ou ampliação dos próprios conhecimentos, a literatura, à medida que preenche a nossa incessante busca por fantasia e desejo, serve-nos como poderoso instrumento por meio do qual somos compelidos a nos vermos representados naquilo que lemos e a estabelecermos vínculos com outras pessoas e, por extensão, com toda a humanidade. Por esse aspecto bastante singular que, talvez, seja comum às demais formas de arte, a literatura – para lembrarmos as palavras de George Steiner –, em meio às muitas transformações políticas, culturais, sociais e econômicas, pode trazer contribuições não só para uma melhor adequação a um mundo novo como principalmente para a formação do ser humano.

E aqui eu não poderia deixar de citar as palavras de outro grande estudioso. Muito mais do que simples guardiã do patrimônio cultural, a literatura, para Umberto Eco, faz com que chegue até nós “ecos de um mundo de valores que chega de e remete a livros” e coloca-nos, portanto, diante de “heróis, que poderiam fugir de um fado atroz [mas que], por debilidade ou cegueira, não compreendem ao encontro do que estão indo, e precipitam-se no abismo que cavaram com as próprias mãos”.

Por agir assim, a literatura, por um lado, educa-nos para que possamos compreender a impossibilidade de modificarmos o nosso destino e de interferirmos nas leis inexoráveis da vida. Por outro lado, se ela não nos oferece um conjunto de soluções para os nossos problemas, pelo menos, nos impulsiona a contestarmos certos pressupostos e suposições e, a partir daí, avançarmos em busca de alternativas que não dão origem a qualquer síntese.

A literatura é, portanto, dotada do poder de fazer-nos mergulhar em suas páginas e delas sairmos renovados, o que ocorre porque  entramos em  contato com um conjunto de experiências humanas e vivenciamos a experiência maior: vermos, em cada texto percorrido, o mundo e a nós mesmos representados, com nossas alegrias e tristezas, com nossos altos e baixos.

Desse modo, a literatura fomenta em nós o debate e a reflexão crítica, mas também nos sensibiliza, pondo-nos diante de novas formas de ser e existir, já que a palavra literária trabalha com os sentimentos que fundam o homem: a busca, a perda, o desencanto, o medo, a esperança, o luto, o amor, o ciúme, a fraternidade. Como leitores, cabe a nós estarmos aptos para reconhecermos os sentidos, a decifração de signos e a reconstrução de uma linguagem, a literária, que guarda todas as dores e emoções do mundo e que, para lembrarmos Fernando Pessoa, é “uma confissão de que a vida não basta”.

Amiel Nassar Rivera