Último casal do cangaço é revelado em documentário

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Com a morte de Candeeiro, ao 97 anos, na última quarta-feira, o penúltimo cangaceiro então vivo, e o 75º aniversário de morte de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, completado no último domingo, o cangaço tem tudo para voltar à voga nestes tempos combativo de manifestações e protestos Brasil afora.

Para acender ainda mais a chama do cangaço, que parece nunca ter se apagado, em novembro estreia, em circuito nacional, "Os últimos cangaceiros", de Wolney Oliveira. É o primeiro documentário sobre o cangaço, fenômeno que já foi objeto de mais de 40 longas brasileiros de ficção. Devoto de ´Padim Ciço´, Lampião tinha no Cariri cearense território sagrado.

O documentário teve cenas rodadas em Juazeiro, Fortaleza e Brejo Santo (onde morou o cangaceiro "Moreno", além de cidades de outros sete Estados.

Vencedor de Melhor Longa-metragem Ibero-americano no Docs DF 2012 - Festival de Documentários da Cidade do México, e de outro sete prêmios, o filme conta a história dos ex-cangaceiros Durvinha e Moreno, que fizeram parte do bando.

O arretado casal de velhinhos escondeu sua verdadeira identidade e o passado controverso até da própria sombra, por mais de meio século. Até que Moreno, então com 95 anos, resolveu dividir com os filhos o peso das lembranças e reencontrar parentes vivos, entre eles seu primeiro filho, deixado aos cuidados de um padre, mais de cinco décadas atrás quando ele e a mulher serviram a Lampião.

Segredo

Durvinha e Moreno, falecidos após as filmagens, esconderam sua verdadeira identidade até dos próprios filhos. O casal tinha feito parte do bando de Lampião, o principal líder do cangaço. Nesse sentido, Wolney Oliveira coloca uma peça-chave na nossa empoeirada coleção ´Vultos da Pátria´ - com um enfoque mais digerível, embora com um nó na garganta (melhor que uma faca), e mais aceito por descendentes de cangaceiros que a carapuça de foras-da-lei.

"Foi um parto fazer esse filme, que seria originalmente sobre Lampião. Mas acabamos nos apaixonando por Durvinha e Moreno" diz o cineasta cearense. Wolney promete fazer outro documentário, dessa vez sobre o ´Rei do Cangaço´. Sem julgamento moral ou de caráter, ´Os Últimos Cangaceiros´ mescla histórias pessoais e humanas com imagens inéditas e raras do cangaço - muitas creditada a Benjamin Abraão, personagem de outro filme, O Baile Perfumado.

Apesar do recolhimento do livro sobre Lampião (o autor Antonio Amaury aponta que o cangaceiro teria sido gay, a filha de Lampião, Expedita Ferreira, conseguiu liminar na Justiça de Sergipe em 2011), de Antônio Amaury Corrêa Araújo, um dos maiores especialistas em cangaço, nada menos que quatro novos lançamentos sobre o tema chegam às livrarias.

Autor de 14 livros sobre o assunto, Antonio Amaury está lançando em agosto uma quarta edição, revista e ampliada, de Assim Morreu Lampião (Traço Editora), cuja edição anterior data de 28 anos atrás e tinha 180 páginas. "Agora, são 400 páginas, celebra Amaury. Ele mesmo será objeto de um novo documentário sobre mitos e verdades a respeito de Lampião, rodado em agosto, pelo Centro de Estudos Euclides de Cunha, da Universidade do Estado da Bahia (UEBA).

O pesquisador aproveita para corrigir a informação, publicada pela maioria da imprensa, de que Candeeiro seria o último cangaceiro e que ele teria sido importante no bando de Lampião. "Candeeiro ficou somente 18 meses em atividade, passando a maior parte do tempo como babá do bravo cão de Lampião, o Guarani, e fazendo guisado (os homens é que cozinhavam no cangaço). Resta vivo ainda o Vinte e Cinco, que ficou seis anos no cangaço", informa Amaury.

O historiador recifense Frederico Pernambucano de Mello, autor de "Estrelas de Aço - a estética do cangaço" (Escrituras Editora, 258 páginas, 2010), livro de arte com mais de 300 fotos, incluindo inéditas, e prefácio de Ariano Suassuna, também assina embaixo: Vinte Cinco está vivo e mora em Maceió (AL)".

Os outros livros relançados são da Sebo Vermelho Edições e ajudam aos aficionados conhecerem melhor a saga do cangaço: o enciclopédico Quem é Quem no Cangaço, do pernambucano Paulo Medeiros Gastão; O Cabeleira, clássico de Franklin Távora; e Lampião - Sua História, primeira biografia sobre o cangaceiro, escrita em 1926 pelo paraibano Érico de Almeida. "É mais uma raridade da bibliografia do cangaço, para conhecimento das novas gerações", comentou Abimael Silva, da Sebo Vermelho, sobre a biografia pioneira escrita mais de uma década antes da morte de Lampião - história que familiares do Rei do Cangaço, como a neta Vera Ferreira, que mantém o site www.infonet.com.br/lampiao, preferem aceitar como verdadeira.

Herói bandido

Mais do que outras artes, o cinema e a literatura imortalizaram a cultura do cangaço, ora com Lampião na espécie de Robin Hood, dos ricos para dar aos pobres, ora uma figura pré-revolucionária, que questionava e subvertia a ordem social de sua época (anos 20 até 40) e região Nordeste, ora como o cangaço fruto do jaguncismo que imperava pelo coronelismo vigente, ou, ainda, como bandidagem pura e simples. "Ainda há muito o que descobrir sobre o cangaço. A exemplo do filme ´Os últimos cangaceiros´, ele ainda deverá inspirar muitas outras obras", aposta Antonio Amaury.

Mais informações:

Acervo bibliográfico sobre cangaceiros na Biblioteca Estadual Menezes Pimentel - Fortaleza

Av. Presidente Castelo Branco, 255

Telefones: (85) 3101-2552/2541

Fonte: Diário do Nordeste

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